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As viagens que correram mal, ou não correram

Com a chegada do SARSCoV2 (vulgo coronavírus) e as medidas de confinamento a nível global, muitas pessoas viram as suas viagens de sonho canceladas ou adiadas durante este ano. Como nós, infelizmente, já temos alguma experiência em viagens que correram menos bem, ou simplesmente, não correram, decidi partilhar convosco o nosso testemunho.

1- Barcelona (Agosto 2016)

No ano em que começámos a namorar, eu Marta, fiz uma viagem pela Europa até à Polónia, onde estive um mês a fazer um intercâmbio incrível num hospital em Szczecin.

No regresso, combinámos encontrar-nos em Barcelona e para além de o meu avião de Berlim para Espanha ter atrasado mais de uma hora, cheguei ao destino com febre e dores de garganta. Não havia muita ciência por detrás da minha doença, mas chegou para passar 2 dias a arrastar-me pela cidade com febre e de baixo de um sol fortíssimo.

Tivemos que nos adaptar à minha situação e optámos por comprar bilhetes dos autocarros Hop on Hop off  para conseguir percorrer a cidade de forma mais cómoda. Ainda conseguimos visitar o Park Guell, Las Ramblas, o mercado e a monumental Sagrada Familia.

Para ajudar a festa, o Diogo tinha planeado pedir-me oficialmente em namoro nas torres da Sagrada Familia, que não foi possível porque foram fechadas graças às condições meteorológicas desfavoráveis. Ele ficou muito chateado, mas eu só percebi a verdadeira razão vários meses depois. AH AH AH.

Não fiquei fascinada por Barcelona, mas sei que houve vários fatores que não me permitiram desfrutar da cidade ao máximo, nomeadamente falhou sentir a cultura e arquitetura das ruas, e por isso, quero muito dar uma segunda oportunidade à cidade.

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Eu com péssimo ar, cheia de frio e, também calor, enquanto o Diogo tomava banho na piscina do hotel ahahah

2 – Madeira (Dezembro 2016)

Em Dezembro do mesmo ano, tínhamos viagem marcada para a Madeira. Um ou dois dias antes do dia da partida, fiquei novamente doente. Tinha febre e outros sintomas (já não me lembro quais). Depois da experiência de Barcelona, decidi não ir na viagem e sugeri que o Diogo levasse a mãe, que nunca tinha andado de avião.

Mas para um batismo de voo também não foi tudo perfeito. Não se tratasse, obviamente, do aeroporto do Funchal!

Fizeram 3 tentativas de aterragem no Funchal, sem sucesso.

Pararam em Porto Santo para reabastecer.

Mais 3 tentativas de aterragem.

Decidiram voltar para Lisboa, onde passaram uma noite.

Lá conseguiram aterrar no Funchal no dia seguinte.

Tirando a reserva no hotel do Funchal e o aluguer do carro que tiveram que adiar um dia, a restante viagem correu impecável.

Para quem acredita em Deus, realmente ele pode escrever “direito por linhas tortas”. Acabou por ser uma oportunidade incrível de um filho e uma mãe que nunca tinha andado de avião, passarem uns belos dias juntos.

3 – Ásia (Novembro 2018)

Esta foi talvez a viagem que mais nos entristeceu porque tínhamos muitos sonhos e planos.

Mais uma vez, fiquei doente (e eu nem fico doente assim tantas vezes!).

Esta era uma viagem muito importante, principalmente para mim. Era a viagem de 3 semanas pela Ásia após a Prova Nacional de Seriação (vulgo Harrison), que me tinha custado um ano de ansiedade, pestanas queimadas e noites mal dormidas.

Tínhamos planeado ir a Singapura, Tailândia e Bali. Estava tudo reservado: hotéis e carros reservados, bilhetes de transportes – tudo certo!

Resumindo, fui de viagem já adoentada, mas nada de preocupante. Durante as 14 horas de voo até Singapura senti-me muito incomodada com o ar condicionado, aumentaram as dores de garganta e o mal estar generalizado.
Passei muito mal a primeira noite, mas achei que era do jet leg, mudança de pais, clima e um quarto de hotel mínimo.

Fiz-me de forte e passeámos durante o dia.

Sentia-me cada vez pior!

Decidimos procurar um novo hotel mais confortável,  fizemos check in e deitei-me na cama.

Não consegui levantar-me mais!  Estava super nauseada, vomitei e senti-a me super fraca.

Um amigo nosso foi ter connosco ao novo hotel e levou me a uma clínica privada. Fui vista por um médico e enquanto era conduzida à sala de tratamentos pela enfermeira, esta encarregou-se de me perguntar se eu não preferia ver antes a fatura. 🙄 Eu disse que tinha seguro de saúde em viagem (melhores 70€ da vida!) e lá tive a soro e anti-eméticos durante uma hora. (enquanto o Diogo e o amigo comiam pizza e bebiam canecas de cerveja num bar perto do hospital).  Soro caro, 300€ !

Parei de vomitar e tive alta com medicação para o domicilio. No entanto, dos restantes sintomas pouco mudou e sentia-me cada vez mais desidratada.

No dia seguinte tínhamos voo para Bangkok e decidimos ir.

Foi caótico chegar ao hotel, a rua estava em obras e tivemos que ir do táxi até à entrada do hotel com as malas todas atrás. No dia seguinte acordei igual ou pior. Alterámos os planos e optámos por escolher uma visita mais calma e sem grandes caminhadas, o o Wat Pho, o Templo do Buda Deitado. Exigia apenas apanhar um táxi até lá, visitar o templo e voltar para o hotel.

Parecia uma tarefa simples não estivessem uns 35ºC, um trânsito caótico em Bangkok e uma Marta moribunda!

Tentei aproveitar o templo ao máximo com os mix feelings de por lado provavelmente ser a última vez que ali estaria e ao mesmo tempo com a cabeça a arder, o corpo fraco e a tristeza de a viagem que eu tanto sonhei estar a ser um fiasco.

O templo distava do hotel uns 10 km e demorámos uma hora de táxi de regresso ao hotel. Sim, 10 km – 60 minutos.

Não me lembro de nada do que vi durante esta viagem, só me lembro de chorar que nem uma Madalena, “chamar” pela minha mãe e de chegar à conclusão que não conseguia mais e que tinha que voltar para casa.

E assim foi, nessa noite decidimos que o mais sensato era voltar para Portugal já que segundo os planos teríamos mais 2 semanas muito agitadas pela frente, com viagens de avião constantes, muitas caminhadas e visitas, e só estava planeado abrandar o ritmo nos últimos dias.

Não foi uma decisão nada fácil. Muitos meses de estudo. As merecidas férias. Mais de 5 meses de planeamento.  Alguns alojamentos, voos e visitas pagas.

Portanto, o regresso estava planeado pela Emirates apenas 2 semanas depois e com origem em Bali e nós só queríamos uma viagem o mais rápido possível de Bangkok para Portugal.

Ligámos para a Emirates já com a ideia que oferecer um rim para voltar a casa. Como não é de admirar foram extremamente simpáticos e disseram:

– Conseguimos voo amanhã de manhã para Portugal por mais 100 €.

– 100€ cada um?

– Não, 100 € os dois !

Confesso que foi um alivio gigante. Tendo em conta que cada viagem custou 700€, apenas 50 € para antecipar 2 semanas uma viagem e com um aeroporto de origem diferente, pareceu-me bastante animador.

E assim foi, arrumámos tudo e no dia seguinte de manhã rumámos para o conforto do pais e da família.

Ah, espera ! Antes disso as nossas bagagens de porão ficaram no Dubai (escala), com chave do carro lá dentro. Pois !

Mas na verdade não há coragem para refilar com a Emirates – pediram mil desculpas, arranjaram soluções e foram sempre muito atenciosos.

Passado poucos dias melhorei, mas nunca senti arrependimento pela decisão de voltar a casa.

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Ainda deu para aproveitar minimamente Singapura e adorei. 

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Reparem só na minha cara de desidratação no Wat Pho em Bangkok 😥

 

4 – Croácia (Junho 2019)

Mais uma viagem de sonho. Sempre quis fazer uma roadtrip pela Croácia. A mistura entre a cultura das cidades, os parques naturais e as praias parecia-me idílico para uma viagem de 10 dias.

Mais uma vez estava tudo planeado: voos, alojamento e aluguer de carro.

Duas semanas antes da viagem à Croácia comecei a sentir umas dores de barriga muito fortes tipo cólica à direita. Deixei-me estar por casa, mas a dor começou a aumentar e por mais analgésicos orais que tomasse a dor não aliviava. Lá decidi ir à urgência, supostamente, apenas para tomar medicação para as cólicas e voltar para casa.

Quando cheguei à triagem, tinha febre e começaram a soar sininhos na minha cabeça e  todos os algoritmos diagnósticos começados por dor abdominal e febre – isto não é bom! A ecografia abdominal estava normal mas tinha os parâmetros inflamatórios bastante aumentados. Durante a noite fiz uma TC Abdominal e veio o diagnóstico: ileite (inflamação do ileon – última porção do intestino delgado)! O que significaria internamento hospitalar para fazer antibiótico endovenoso.

A minha sorte foi que o Hospital Distrital da Figueira da Foz estava a dar os primeiros passos na hospitalização domiciliária, o que me possibilitou estar internada em casa durante uma semana (foi a minha primeira experiência de confinamento).

Ultrapassada a semana de dores, náuseas, vómitos, visitas da equipa de enfermagem 3 vezes por dia,  visita da equipa médica 1 vez por dia, ainda estava convencida que ia para a Croácia!

Mas não. Na semana seguinte seguiu-se toda a recuperação e o estudo da situação, com consultas e vários exames.

Enviei atestado médico e consegui o cancelamento gratuito de todos os hóteis (menos um), reembolso do pagamento dos voos (excepto taxas) e do rent-a-car.

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Hospitalização Domiciliária

Durante algum tempo a família dizia que devíamos ir à bruxa ou simplesmente deixar de viajar. A primeira hipótese ainda me passou pela cabeça. A segunda nem por isso.

Apesar de todo o testemunho, não sou o melhor exemplo de como lidar com os planos que não correram tão bem como esperado. Só ontem percebi que nas minhas redes sociais não há vestígios de Ásia. É como se não tivesse acontecido!

Senti-me frustrada, fiquei zangada com os destinos e consegui perder o encanto por alguns deles. Nunca mais tive aquela vontade de ir à Croácia. Mas a boa notícia é que a vontade de conhecer a Ásia está novamente a florescer. 

A ideia fundamental que gostava de passar é que os imprevistos podem acontecer nas viagens tal como na vida em geral e devemos adaptarmo-nos a eles ou simplesmente tomar uma decisão. Voltar para casa não significou desistir, significou apenas mudar o rumo e contar outra história. Depois de ficar bem, passámos uns dias incríveis no Algarve.

No futuro, provavelmente evitarei Bangkok porque não apreciei o ambiente caótico da cidade, o trânsito infernal e o calor. No entanto, voltou a curiosidade de conhecer a restante Tailândia, as cidades mais pequenas e pitorescas, a cultura, as pessoas amáveis que lembro e as praias.

Fazemos as pazes ? 🕊

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 comentários em “As viagens que correram mal, ou não correram”

  1. Ando aqui à procura de dicas tuas de Aveiro (hei-de lá chegar) e achei muita graça a esta publicação. Não é muito habitual ler sobre viagens que ‘correram mal’. Por cá, uma inflamação num pé em Madrid (nunca percebi o que era, no hospital disseram que era um espigão?) que me fez visitar museus de cadeira de rodas, um pé torcido em Porto Santo (o meu pai) que nos remeteu à praia durante uma semana (ninguém chorou) e várias (VÁRIAS) gastroenterites atacadas a Bactrim e outros (a minha mãe viajava sempre carregada de antibióticos e escolhia à sorte). Viajar com a Joana e o Bernardo dá sempre direito a vomitanços vários porque eles enjoam em carros/barcos/aviões. E depois há os miúdos – a cabeça partida do Matias na Serra da Estrela, a febre da Gabriela em Grândola, a febre do Matias em Santorini, a laringite com estridor do Matias no Alentejo… E continuaria 😛

    Também detestei a Tailândia 😛 Aliás, não me lembro de ter gostado grandemente de destino nenhum da Ásia que já visitei (Tailândia, Malásia, Bali, Nepal e nem me faças falar da Índia). Mas adorei Singapura e já lá voltei algumas vezes e também gostei da China.

    1. “Também detestei a Tailândia 😛 Aliás, não me lembro de ter gostado grandemente de destino nenhum da Ásia que já visitei (Tailândia, Malásia, Bali, Nepal e nem me faças falar da Índia)”
      Esta coisa da globalização das viagens, faz com que seja socialmente pouco aceite dizer mal de alguma e qualquer viagem. Muito menos da Ásia. Não podes dizer que não gostas da Ásia. O que é ridiculo, porque os destinos são diferentes, nós somos todos os diferentes, e isso sim faz de isto tudo uma coisa muito mais gira e especial. Boas viagens Joana e, agora, boas avnturas alentejanas. e obrigada pelo teu comentário.

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